Marília Abrão: “O machismo existe, mas ele não vai nos parar.”

Engenheira de Minas, que tem se tornado uma referência da área, fala sobre desafios e oportunidades para as mulheres na carreira

Marília Abrão durante trabalho em campo. Foto: Arquivo pessoal

Dona de uma trajetória extensa na indústria da mineração, Marília Abrão é um daqueles perfis que costumamos identificar como “sênior’’. Formada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a engenheira de minas, que também é especialista em engenharia de barragens, concilia seu trabalho de consultoria com o doutorado.

Mesmo com tantas atividades, a profissional, que atua como professora universitária, não cansa de compartilhar o conhecimento acumulado através de anos de experiência. Ela mantém um instagram onde é possível encontrá-la diariamente para tirar dúvidas sobre carreira ou, até mesmo, ter acesso a uma boa dose de incentivo para continuar os estudos.

Apesar da trajetória brilhante, nem tudo são flores. Marília não escapou da realidade ainda vivida pelas mulheres: o machismo. Em entrevista nas nossas redes sociais, Abrão conta que a escolha do curso foi questionada e que também já teve sua opinião técnica não levada em consideração por ser mulher — e isso não a abalou. A engenheira, que adora “um desafio”, em suas palavras, fez do limão, uma limonada, e chegou a ser a primeira mulher a pisar em uma mina subterrânea de uma empresa em que trabalhou na Argentina.

Marília Abrão faz parte de uma geração que tem aberto o caminho para que outras mulheres possam sonhar com a profissão. Quando ela começou, havia apenas uma outra colega em uma turma de 25 alunos. Não demorou para que a parceira desistisse do curso e Marília se tornasse a única mulher da turma. Depois de 2016, a presença feminina nas faculdades de engenharia quase dobrou no país, mas outros empecilhos ao longo da graduação fazem com que o nível de evasão ainda seja grande.

Para que nenhuma mulher interrompa seus sonhos, é fundamental que se construa uma rede de apoio. Por isso, convidamos a Marília para falar sobre o papel das mulheres na mineração, além de dar algumas dicas para quem está em processo de formação ou na fase de ingresso no mercado de trabalho.

Minery: Como você chegou na Engenharia de Minas?

Marília Abrão: Eu até conheço pessoas que têm uma forma meio romântica de contar. Eu caí meio de paraquedas. Na verdade, escolhi [o curso] nos 45 segundos do segundo tempo, por conta da pressão dos meus pais para que eu escolhesse uma faculdade. Eu sabia o que eu não queria, mas não sabia bem o que queria. No fim das contas, escolhi Engenharia de Minas. Todo mundo dizia eu eu não ia gostar ou que isso não era para mulher. Algumas pessoas ficaram chocadas e disseram que eu ia desistir no primeiro semestre. Mas eu amo um desafio e acabei me apaixonando.

M: Você já passou por situações de machismo na profissão?

MA: Já não levaram em consideração minha opinião técnica por ser mulher. Eu sempre tentei não dar atenção para isso e continuar defendendo minha opinião. Para vocês ficarem um pouco mais chocados com a realidade da mulher na mineração, em uma empresa em que trabalhei, até 2012 era proibido que mulher trabalhasse lá. A mulher era proibida de ingressar na mina subterrânea. Eu fui a primeira mulher a ser contratada para trabalhar no subterrâneo. Quando entrei na faculdade, tinha mais uma menina junto comigo, numa turma de 25 alunos. Depois, ela saiu e eu fiquei sozinha. Quando eu comecei a dar aula já era uma realidade diferente. A única coisa que eu queria era que não desistissem.

M: Tem muita desistência, né?

Eu acho que se a pessoa tem vontade, ela gosta, não deixe que isso seja um empecilho. O machismo existe, mas ele não vai nos parar. Eu nunca deixei que isso me parasse. Acho que o trabalho e o bom rendimento superam qualquer coisa. Agora, se a pessoa tem dúvida sobre a profissão mesmo, é super compreensível.

Internauta: É possível ingressar na carreira sem ter feito estágio?

MA: Eu recebo muitas perguntas sobre isso todos os dias e as pessoas acham que não conseguem vaga porque não fizeram estágio, mas tem muitas outras coisas que as empresas olham. Se você tinha uma Empresa Júnior, se participou do Centro Acadêmico, enfim, se você se engajou de alguma forma na universidade, seu currículo fica melhor. Eu fui vice-presidente do Diretório Acadêmico e trabalhei como monitora de mecânica de rocha. Isso me ajudou. A empresa que vai te contratar quer um profissional que tem experiência robusta ou alguém que tem muito conhecimento.

I: Falar outros idiomas é fundamental?

MA: Eu fui para Uruguai e eu não falava espanhol, mas me contrataram porque eu tinha sido engajada na universidade. Vai te ajudar se você for trabalhar fora. Para altos cargos é importante, mas para quem está começando não é fundamental.

M: O que você acha que precisa melhorar nas universidades?

Eu acho que precisa de mais parcerias entre as empresas e as universidades. Há alguns anos não tinha tantas universidades privadas oferecendo Engenharia de Minas. Até existiam parcerias de universidades federais com mineradoras mas, nas privadas, menos. Os cursos mais novos não tem essa conexão, não tem saída de campo, dificulta muito a colocação no mercado de trabalho.

I: Cursos livres reconhecidos pelo Ministério da Educação (MEC) são um diferencial?

Eu acredito que sim. Tudo que for reconhecido pelo MEC sempre será melhor em vista dos que não são. Com relação a uma pós graduação, é importante sempre ter bastante cuidado. Existem instituições que não têm qualidade. Veja se tem reconhecimento pelo MEC, porque às vezes tem disciplina só para tapar buraco. Exija o nome dos professores e você também pode procurar o currículo deles na plataforma lattes.

I: Quando você ingressou no mercado você achou que as coisas eram muito diferentes do meio acadêmico?

Uma coisa é o acadêmico, outra coisa é a indústria. Isso me incomodava bastante, até que eu entendi o equilíbrio. Nos livros tudo funciona, mas não é assim na realidade e a gente não está preparado para isso. O que eu entendi: não adianta nada eu ficar estudando e não aplicar. O conhecimento só serve quando é aplicado. Você vai esbarrar com as pessoas que vão rir da tua cara. Se tu for mulher, vai piorar um pouco. Mas a gente que é profissional precisa criar um equilíbrio e realmente aplicar o que você está aprendendo. Você estuda para um objetivo: tentar otimizar o seu trabalho, o seu processo, mas isso leva um tempo.

I: Quando você saiu da faculdade já sabia em qual área queria atuar?

Eu caí na geotecnia porque era o que dava. Eu estava na universidade, precisava de uma bolsa de iniciação científica que ajudasse nos gastos da faculdade. Eu topei, e era trabalho de mecânica de rochas, e aí eu acabei gostando. Por muitos anos — faz dez anos que eu trabalho com mecânica de rocha — eu me perguntei se era isso mesmo, mas depois que eu fui trabalhar na Argentina, no Uruguai, eu vi outras áreas e não achei tão interessante.

I: Como conseguiu entrar no mercado? O famoso QI — Quem Indica — é importante ou você acha que é mesmo o network?

Eu reconheço que o QI é importante mas network é fundamental. Eu acho que eles estão meio juntos, na verdade. É muito difícil fazer tudo sozinho, a gente precisa colaborar, trocar figurinhas, isso é para tudo. Você faz isso no meio acadêmico, você faz isso na indústria. Às vezes eu recebo uma vaga que é para um ponto da minha carreira que eu já passei, ou é muito acima, que é uma coisa que para mim não é adequada e eu passo para a frente. Isso é network, mas para isso você tem que deixar uma boa imagem sua para as outras pessoas, se não você nunca vai conseguir ser indicado.

I: Pós ou mestrado?

Pós [graduação] têm várias. Engenheira Geotécnica pipocou depois do desastre das barragens. Escolha uma boa instituição para você não se esforçar para pagar algo que não tem qualidade.

Viemos para desafiar o sistema. Nascemos com o propósito de transformar o mercado de mineração global.