Marcio José Remédio: “Os agrominerais são uma questão estratégica para o Brasil e o mundo.”

Gestor do CPRM lidera instituição e abre caminho para maior produção de insumos agrícolas no Brasil

Formado em geologia e pós-graduado em Geotecnia pela Universidade de São Paulo (USP), o diretor Geral do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), Marcio José Remédio, foi recebido pela Minery para falar de um tema cada vez mais latente quando o assunto é o agronegócio brasileiro: o uso de agrominerais para a correção de solo.

Em entrevista, o gestor do órgão responsável por um banco de dados com informações científicas disponíveis gratuitamente para o público, alerta sobre a tendência de grande aumento da “produção para que o mundo possa se alimentar” na próxima década e esclarece as razões que explicam a dependência de fertilizantes trazidos do exterior. Segundo Márcio, somente a importação do potássio representa, nos dias atuais, um déficit de R$ 17 bilhões na nossa balança comercial.

Por outro lado, em um contexto de crise, o agro nacional passou a ter um potencial ainda maior devido ao aumento global da demanda por alimentos, tendo a possibilidade de “oferecer oportunidades dentro do país e de ter insumos que garantam a produção”, afirma Remédio em sinal de alerta para quem está na dianteira da busca por inovação e aumento da rentabilidade dos negócios.

Para compartilhar mais informações sobre o uso dos agrominerais e seus benefícios, fomos direto à fonte.

Minery: O que faz o CPRM?

Marcio Jose Remédio: Nós temos realizado trabalhos no sentido de aumentar as oportunidades, ou seja, como nós realizamos um trabalho técnico, nós tentamos reduzir o risco do investidor em exploração mineral. Temos tentado ajudar o Brasil a reduzir o déficit de segmentos importantes como o dos fertilizantes e dos agrominerais em geral.

M: A CPRM tem feito um bom trabalho nesse sentido por fazer trabalhos de pesquisa abrangentes. Fale mais sobre isso e sobre sua trajetória.

MJR: Sou geólogo formado na USP. Assim que saí da graduação entrei na CPRM. Trabalhei com geologia e mapeamento geológico. Passei por muitas funções, até mesmo pela assessoria da CPRM, até chegar à diretoria. A minha história é comum: um geólogo da casa que tem um perfil um pouco mais para a gestão, que faz uma leitura 360º do ambiente e, por isso, talvez eu esteja na diretoria neste momento.

M: Qual trabalho a CPRM tem feito para o desenvolvimento do Brasil?

MJR: A CPRM é o serviço geológico do Brasil. Ela foi criada em 1969 por uma lei. Antes, ela era a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais. Naquela época a indústria de exploração não era tão robusta por questões tecnológicas e falta de investimento. A CPRM fazia a pesquisa mineral, encontrava depósito e transferia para a iniciativa privada. Ao mesmo tempo, ela era contratada pelo DNPM [Departamento Nacional de Produção Mineral], que hoje é a Agência Nacional de Mineração, para realizar estudos específicos sob demanda.

Em 1994 a CPRM deixa de ser uma Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais — ela manteve esse serviço — e passa a ter as atribuições de serviço geológico com a missão de gerar e disseminar o conhecimento científico para promover o desenvolvimento sustentável.

Nós somos responsáveis por gerar informações básicas, o banco de dados geocientífico é gratuito e público.

M: Há um aumento na produção de relatórios sobre o uso de agrominerais. O que vem sendo feito nesses estudos?

MJR: A CPRM fazia o mapeamento geológico em terrenos cristalinos e a Petrobras nas bacias sedimentares para buscar petróleo. Essa talvez seja a fonte do nosso déficit de agrominerais. A procura nas bacias é importante, mas em algum momento isso não passou na cabeça das pessoas. A CPRM tem tomado a frente e se posicionado como a instituição que vai fazer a pesquisa em bacias sedimentares uma vez que a Petrobrás, pela quebra de monopólio, deixa de ser um fornecedora de informação e passa a defender os interesses da empresa. Ela não gera informações para o Estado e sim para os acionistas. Nós temos um projeto importante, o Fosfato Brasil, que trabalhou em várias regiões e trouxe importantes resultados, percebendo o caráter estratégico dos agrominerais que vem só se acentuando em função do aumento da demanda por alimentos no mundo.

M: Foi o que ocorreu agora, não é? Em todos os cenários da pandemia houve esse aumento da demanda por alimentos e a gente viu esses setores crescendo.

MJR: Em uma leitura simplificada, o Brasil deve aumentar muito sua produção para que o mundo possa se alimentar nos próximos dez anos. Os agrominerais são uma questão estratégica para o Brasil e para o mundo por oferecer oportunidades dentro do país, de ter os insumos que garantam a produção.

M: E reduzir um pouco a nossa dependência. A gente ainda depende bastante de alguns materiais de fora e, por isso, ficamos expostos às oscilações do dólar.

MJR: Nós dependemos muito de fora. Para se ter uma ideia, nós importamos 96% do potássio e 55% do fosfato — só o potássio gera na balança R$17 bilhões de saldo negativo. A disseminação da utilização dos fertilizantes no Brasil é um pouco mais acentuada por causa do caráter tropical, nosso solo precisa um pouco mais deles. Mas a cultura de utilizar o fertilizante é importante porque além de aumentar a produtividade ela tem um fator ambiental muito acentuado que é, principalmente, quando falamos dos assentados na região amazônica que abrem uma roça, começam uma produção, cai a produção e eles não aplicam o fertilizante. Daí abre outra área.

M: Como fica, então, a questão da rochagem, que é uma alternativa mais barata? Temos calcário em praticamente todo o território e, obviamente, existem as limitações de logística.

MJR: O solo é uma rocha que foi alterada para o solo. O solo tropical, que é o que precisamos remineralizar, já foi bastante lixiviado. Quando você coloca pó de rocha você permite que a composição daquele ambiente fique mais fértil e o pó de rocha, por ser fino, tem uma superfície específica bastante grande que permite uma interação com fluidos orgânicos e das intempéries para liberar esses importantes elementos para as culturas. É uma ação bastante importante e o serviço geológico tem trabalhado com bastante afinco nisso.

M: O Brasil tem dimensões continentais e o que se usa no norte é diferente do que se usa no sul. Como fica a questão da remineralização ao considerarmos a questão regional?

MJR: As áreas estudadas no projeto são elementos, subprodutos da indústria mineral. Já existe uma pedreira, por exemplo, que tem alguns resíduos mas que na verdade são subprodutos. As pessoas tratam como resíduos mas a denominação “produto” é a destinação correta. É o melhor aproveitamento da jazida. Hoje nós entramos na questão da economia circular que você tem que usar ao máximo. Esse trabalho foi feito por estados. Identificamos, em parceria com a Embrapa, a partir das pedreiras, em função da geologia, qual material seria útil para a rochagem. Existe em andamento o Plano Nacional de Fertilizantes. Estão nele o Serviço Geológico, ministério da Agricultura, muitas instituições unidas para ter um plano da redução dessa dependência da oferta para melhorar a competitividade do nosso agronegócio o que trará, de fato, bons frutos.

M: Temos percebido que o era considerado rejeito hoje pode ser considerado um produto para ser comercializado na indústria.

MJR: Todo o setor mineral precisava desse olhar e o tem porque são empresários com tino para o negócio. Os depósitos, há quarenta anos, tinham um volume muito grande. Hoje tem reduzido o tamanho em função da tecnologia. A indústria é mais eficiente, ambientalmente mais correta. Essa é uma leitura que nós fazemos e acreditamos que todas as outras pessoas precisam ter esse olhar.

M: Há uma cobrança da sociedade sobre o que fazer com o rejeito. Esse termo precisa ser reclassificado?

MJR: Ele é um subproduto. Algumas situações acabam sendo mais difíceis. Nós temos que investir em ciência e tecnologia. O serviço geológico é uma instituição de ciência e tecnologia, então estamos nos estruturando para trabalhar fortemente, mas precisamos ampliar ainda mais esse trabalho em parceria com a iniciativa privada e outras instituições.

M: Existe um problema de investimento em pesquisa no Brasil.

MJR: Você tocou em um ponto importante: o acesso ao capital aqui no Brasil é bastante complicado. Para você ter ideia do compromisso que o país tem com relação a alimentar o mundo, o setor agro hoje é um setor fundamental para termos estabilidade e paz mundial. Nós temos 100 milhões de hectares de pastagens. Disso, 70% precisa ser mineralizado. Isso diminuiria a área do gado e abriria espaço para a agricultura, aumentando a produtividade sem precisar utilizar outras áreas. Por isso, precisamos fortemente investir em tecnologia.

Internauta: Quem hoje representa os agrominerais do ponto de vista do lobby político e institucional junto à Câmara e ao Senado?

MJR: Existem associações que fazem isso, mas representar um setor depende de muita articulação. Não temos indústria estruturada para isso, nós apenas temos áreas com potencial.

I: Quais são os empecilhos para a gente produzir potássio no Brasil?

MJR: Essa é uma questão tecnológica. Esses recursos estão em uma profundidade razoável — 600 a 1200 metros -, o que demanda a engenharia de minas para viabilizar isso. Tem a questão da sensibilidade quando se trata da localidade. Qualquer estudo ambiental deve ser bem feito, independente da região. Você tem muitas áreas restritivas na região amazônica, principalmente na bacia que tem se mostrado uma potência na produção de potássio e nós não produzimos nada, por isso é preciso investir e desmistificar certas coisas.

I: Você poderia fazer algumas projeções para o nordeste?

MJR: A questão do investimento em mineração depende do investimento do mercado mundial, do apetite do mercado global. Cabe a nós apresentar as oportunidades. O Serviço Geológico trabalhou muito no nordeste nos últimos anos. Nós temos uma tecnologia com bom nível de detalhamento, já temos bastante informações, é um potencial. Não raro, você tem visto nos últimos dez anos descobertas importantes no nordeste. O Serviço Geológico apresentou um estudo importantíssimo que deu base para a empresa Sigma fazer a exploração de lítio no Vale do Jequitinhonha.

I: Têm dois editais editais em andamento: o Bom Jardim de Cobre e o Fosfato de Miriri. Você pode falar sobre eles?

MJR: Na divisa da Bahia com Pernambuco nós temos um depósito chamado Miriri de 114 milhões de toneladas. Tem uma proposta bastante interessante. O investimento inicial é bastante baixo e o desembolso vem só com a concessão de lavra e o início da produção. Com um modelo parecido, tem o depósito de cobre, ouro e cobalto em Bom Jardim, uma área com bastante potencial. É um depósito pequeno mas que tem potencial para expansão. Esses esses leilões vêm com investimento inicial bastante reduzido, com uma proposta de pesquisa complementar que deve ser feita pelo parceiro privado, portas de saída quando confirmado a viabilidade do depósito faz dele um negócio muito bom. Está no site do CPRM.

Viemos para desafiar o sistema. Nascemos com o propósito de transformar o mercado de mineração global.

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