Minery Talks: “Temos uma perspectiva muito positiva para a exploração de EV Metals no Brasil”, dizem especialistas

Entenda como estão as previsões para o país em novo super ciclo da mineração

A economia verde está deixando de ser uma promessa para se tornar realidade. Todo esse avanço se dá, em grande parte, à utilização dos EV Metals em alternativas energéticas sustentáveis com potencial de provocar uma forte mudança na indústria global.

Para entender melhor como se desenvolve a crescente demanda por esses minérios que são a base para a produção de veículos elétricos, a Minery recebeu dois grandes especialistas: Felipe Mattos Tavares, que dirige o Departamento de Recursos Minerais do Serviço Geológico do Brasil (CPRM) e Iona de Abreu e Cunha, que chefia a Divisão de Projetos Especiais e Minerais Estratégicos da mesma instituição.

O cruzamento entre tecnologia e mineração está produzindo um horizonte promissor para a consolidação da economia circular, ou seja, em que os recursos naturais são renovados ao máximo para provocar a menor quantidade de impacto possível no meio ambiente e comunidades próximas a mineradoras. Ao que tudo indica, esse futuro será o de um novo super ciclo da mineração que deverá afetar todo o mundo.

O lítio, por exemplo, deve ter sua procura aumentada em mais 1000% nos próximos anos, número que faz com que esse minério, nas palavras de Felipe Tavares, “seja um bom investimento” para os empreendedores brasileiros.

Apesar de o Brasil ainda não ter suficientemente políticas públicas para o aproveitamento dessa grande oportunidade que se abre, a CPRM foi fundamental para criar as condições para a exploração de lítio no Vale do Jequitinhonha, hoje capitaneada pela mineradora canadense Sigma.

Para entender o que são EV Metals, seu potencial de mercado e o posicionamento do Brasil nessa seara, leia a entrevista a seguir.

Eduardo Gama (CEO da Minery): É pertinente falarmos sobre esse termo “EV Metals”. Temos no Brasil o Plano Nacional da Mineração para 2030, em que estão situados os minerais estratégicos. Iona, você pode falar um pouco sobre esse termo, se ele vai se equivaler aos minerais críticos? Lá fora vemos alguns países publicando listas de metais críticos. Você diria que no Brasil corresponde a essa terminologia de minerais estratégicos?

Iona de Abreu e Cunha: Sim. O Serviço Geológico também atua dentro dessa cadeia dos minerais estratégicos. Hoje desenvolvemos alguns projetos na área do lítio, de avaliação do potencial de lítio, avaliação do potencial de grafita no Brasil, do cobalto, são todos ligados a essa cadeia dos Veículos Elétricos, principalmente para baterias de íon-lítio.O Serviço Geológico já desenvolve [projetos] em terras raras. Também temos um projeto de avaliação de terras raras com alguns produtos que já foram entregues. Um dos produtos do lítio foi entregue em 2016 no Vale do Jequitinhonha. No ano passado, tiveram muitas discussões sobre avanços na região de Minas Gerais em função das indicações das áreas que foram disponibilizadas pelo trabalho do Serviço Geológico.

EG — Quais são as dificuldades de desenvolver a exploração do lítio em pegmatito? Sempre que eu converso com o pessoal de fora, geólogos, investidores, eles sempre falam que o pegmatito não dá viabilidade. A gente prefere investir nos sais, mas a gente sabe que hoje 58% das reservas conhecidas são de pegmatito. Temos menos de 10% concentrado de vários tipos de sais. Sabemos que o lítio tende a aumentar essa demanda em até 37 vezes até 2030. O que está impedindo, de fato, que a gente desenvolva essas operações? A gente tem a Sigma na vanguarda, temos alguns outros projetos. Temos a Companhia Brasileira de Lítio na região, mas eu sinto que poderíamos fazer mais. Você tem opinião formada sobre isso?

Felipe Mattos Tavares: Eu acho interessante essa questão porque o lítio de pegmatito tem uma qualidade muito superior ao lítio de sal, em vários sentidos: no teor, por exemplo, ele é superior, numa concentração muito menor. Existe já processamento tecnológico para extrair esse material e o mais interessante, na verdade, na produção de pegmatito, é a possibilidade de você produzir produtos, coprodutos e subprodutos associados a esses depósitos. Existem outros elementos também críticos, como o berilo, que podem ser explorados em conjunto com o lítio. Tem várias substâncias que você pode explorar de forma casada com o lítio e desenvolver uma proposta de mineração integral que tenha impacto menor no meio ambiente e impacto social positivo. Eu acho que experiências de mineração em pegmatito são boas em geral e acredito que o estudo do lítio, por si só, é um bom exemplo de como aqui no Brasil a gente consegue desenvolver projetos porque, mesmo que seja de forma incipiente, nos próximos anos a gente vai dobrar, praticamente, a nossa capacidade de produção de lítio. Estamos saindo agora de 1,9 mil toneladas por ano de produção para 2,5 mil só com esses novos projetos em Minas Gerais e no Ceará. Eu acho que a gente tem uma perspectiva muito positiva para a exploração Ev Metals no Brasil.

EG: A gente vai poder explorar, de fato, esse lítio de pegmatito para que o Brasil se posicione como um player relevante do mercado? Vocês podem falar sobre essa expectativa?

IAC: Com relação a preço não temos um desenvolvimento muito profundo. O mercado global de veículos, em 2020, teve seu pior ano em décadas, mas em contrapartida o mercado de veículos elétricos é uma revolução. Essa cadeia [de veículos elétricos] tem puxado. A gente teve uma queda nos valores do lítio, mas a perspectiva é que isso mude com essa nova demanda não só de carros elétricos, mas também com o armazenamento de energia e do transporte. Portanto, a perspectiva é que tudo isso mude em termos de preço.

EG: Falamos do lítio para carro, porém temos outro problema que é como a gente vai alimentar esses carros. Existem as baterias de Vanádio, que estão na vanguarda do armazenamento. A gente tem Maracás, na Bahia, que é um projeto de sucesso e isso é muito importante para o Brasil se posicionar nesse mercado. Obviamente, seria complicado colocar o Vanádio como um EV Metal, mas indiretamente ele acaba sendo…

FMT: Voltando à primeira questão que você tinha colocado, o mineral crítico, na classificação internacional, corresponde a um grande grupo. Quando falamos de EV Metals, entendo que estamos falando de lítio, de grafita, de cobalto, níquel, manganês e terras raras. Existe uma previsão para os próximos 10 anos do mercado de lítio crescer 11 vezes, mais de 1000%. A demanda tende a aumentar de 17 mil toneladas para 180 mil toneladas nos próximos 10 anos. Portanto, qualquer investimento em lítio é um bom investimento. Assim como o níquel, temos a expectativa de crescer 14 vezes o mercado, o cobalto quase 10 vezes, ou seja, quase duplicar o mercado de terras raras.

EG: Sabemos que a China produz grande quantidade de grafita e que isso deixa pegadas ambientais. Há um estudo que diz que dos 20 grandes projetos mapeados no mundo, 14 estão na África. Mostra, portanto, que a maioria está em zona de conflito. Acredito que o Brasil poderia se posicionar bem como um produtor de grafite. Quais informações vocês têm a respeito disso?

FMT: A gente tem um material bastante extenso sobre grafita no Brasil e no mundo para quem quer explorar esse mineral, isso está disponível no nosso site. A grafita tem um futuro espetacular no Brasil. Trabalhamos, logicamente, com uma visão de longo prazo e a gente está desenvolvendo projetos na área de fronteira, como no Ceará, no Tocantins, no Mato Grosso, na região de Bahia e Minas Gerais, onde já existe uma produção consolidada. Mas realmente projetos novos ainda não estão consolidados. Mas é importante ressaltar que o Brasil já é o terceiro maior produtor de grafita no mundo. A gente tem subtipos de grafita importantes para produção de grafeno e para fins industriais nobres, Acho que a grafita no Brasil tem um posicionamento muito bom que poderia ser até equivalente aos melhores depósitos de grafita do mundo, como os do Sirilanca, por exemplo.

EG: Um negócio de grafita também funciona para grafeno? Como o Brasil se comporta em relação à exploração de grafeno? Há bons depósitos por aqui?

FMT: A gente tem bons depósitos para grafeno. A grafita é classificada de acordo com o seu grau de cristalinidade, desde amorfa até completamente cristalina. Eu não sei em qual lugar dessa faixa temos grafeno, mas temos projetos específicos em desenvolvimento. A informação que eu tenho é a de que a gente tem abundância de depósitos relacionados ao grau de cristalinidade necessária para a produção de grafeno.

EG: Vocês têm visto movimentos dentro do governo para incentivar a exploração de rejeitos?

IAC: A CPRM desenvolveu em 2018 um trabalho sobre rejeitos em Rondônia. A gente tem trabalhado com o Cobalto, por exemplo. Saindo um pouco do caso dos críticos, o próprio fosfato, os remineralizadores de solo, a gente também trabalha com essa parte dos rejeitos de mineração. Temos trabalhado, desde 2019, para desenvolver trabalhos nessa linha e tem dado bons resultados.

FMT: O projeto do cobalto é um bom exemplo de como a parceria entre o setor privado e outros entes e instituições de pesquisa produzem bons resultados para a sociedade. O projeto Cobalto é uma parceria do Centro de Tecnologia Mineral (CETEM) com a CPRM, envolvendo parcerias com a Anglo American, produtora de níquel no Brasil. São projetos onde conseguimos ver desenvolvimento de tecnologia para extração de recursos críticos como subprodutos. Esse tipo de cenário é muito importante para o Brasil porque as rotas dos subprodutos são difíceis, ainda não são complementamente estabelecidas aqui. Seja porque não existe tecnologia, seja porque não existe, na indústria, uma cultura de instalação dessas rotas.

EG: Na opinião de vocês, o que seria o ponto chave para a gente diminuir os custos desse tipo de exploração aqui? Existe algo que a iniciativa privada ou o governo possa fazer?

IAC: É importante o incentivo ao P&D [Pesquisa e Desenvolvimento], não só para consolidar toda essa cadeia produtiva, mas vários tipos de incentivo, porque isso passa por vários problemas: desde o financiamento até essa parte de custo. Manter essa cadeia produtiva é difícil. Estamos identificando aqui que o teor do lítio nos pegmatitos é melhor do que nos sais, mas esse trabalho é mais elevado. Tudo isso parte de P&D.

EG: O Brasil é riquíssimo em manganês. Apesar disso, temos poucas mineradoras relevantes produzindo esse minério e outras empresas que estão patinando. Qual recado vocês dariam para o minerador que está começando um projeto de exploração de manganês?

FMT: Temos um histórico de produção de manganês muito importante no Brasil, passando por Serra do Navio, pela região de Carajás, Minas Gerais, entre outras. Realmente eu acho que o cenário no Brasil para o manganês ficou estagnado, mas eu entendo que é um elemento que nos próximos anos vai ter um crescimento de demanda fantástico no mundo todo e, quem investir agora em manganês, vai ter um retorno muito bom. A expectativa do mercado é grande, existem novas tecnologias para fazer estudos com baterias com manganês. É um dos substitutos para alguns elementos que têm problemas políticos ou de outras naturezas. O Cobalto tem um problema sério de quase monopólio da produção em um país que tem algumas questões sociais, ambientais e políticas. A incerteza em relação à disponibilidade é muito grande. O Brasil tem cobalto nas crostas cobaltíferas no fundo do mar, é uma fronteira exploratória que já existe tecnologia para a produção, mas ainda não existe o investimento específico. O Brasil tem todo o potencial para ser uma fonte segura e estável de cobalto no mundo, assim como de manganês.

EG: O Cobalto é utilizado na bateria para dar estabilidade. Ele reduz a chance de incêndio que havia, antigamente, nas baterias. Hoje você tem cerca de 20% de Cobalto e 20% de Manganês em baterias.. Vocês têm conhecimento de alguns laboratórios ou iniciativas no Brasil para a produção de novas baterias?

FMT: Especificamente para isso, não. Quando a gente fala de geração de tecnologia, o Brasil tem coisas muito importantes na área de terras raras. Temos empresas nacionais produzindo tecnologia de ponta na área de produção de imã. Você pode aumentar em 800% o valor agregado do produto com essa questão da tecnologia. O grande problema das terras raras é o da tecnologia de transformação, do refino, e é um dos principais impeditivos para a produção fora da China, que praticamente monopoliza esse mercado. O investimento em P&D na transformação de terras raras no Brasil é importantíssimo e temos resultados da iniciativa privada bastante interessantes na transformação. A gente tem tecnologia avançada mas precisamos de um constante investimento tanto público quanto privado.

Edu — O investidor tende a querer baixo risco. A gente vê esses investidores que vêm de fora fazendo investimentos pesados na Austrália e no Canadá, por exemplo, e quando chegam no Brasil não querem fazer o mesmo. Para o investidor que está vindo para o Brasil, hoje, qual seria o movimento ideal? A CPRM tem algum tipo de interface com o investidor?

IAC: Os investidores querem o risco baixo e esse risco tem a ver também com a oscilação de mercado e muitas variáveis, além de toda uma coisa de regulação e das taxas. É importante ouvir o setor mineral para que a política seja mais efetiva e a gente consiga que o país vá para outro caminho. Precisamos incentivar as pesquisas. Precisamos de políticas que aumentem isso para que a gente consiga consolidar toda a cadeia de produto de terras raras, do lítio, do cobalto.

FMT: A CPRM tem vários canais de comunicação com a sociedade e com os investidores. Estamos desenvolvendo um portal novo onde investidores vão poder ter acesso a um conjunto integrado de bancos de dados da ANM, IBGE e da CPRM em conjunto a uma análise econômica dos recursos minerais do Brasil. Teremos uma nova maneira de se comunicar com o setor mineral no país. Existe o risco geológico do negócio, que é você ter uma identificação geológica e acabar não encontrando o minério. Você tem o risco exploratório e o risco econômico. Quando falamos de risco, falamos de muitos riscos envolvidos. Nós trabalhamos com o risco geológico e exploratório.

Viemos para desafiar o sistema. Nascemos com o propósito de transformar o mercado de mineração global.

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